Thursday, August 02, 2007

Paradoxas Pedras

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Queridos,

Aqui vai um texto um pouco longo. Mas acho que tá legal. Dêem um retorno.

Abraço Fraterno,
Paz & Bem!

B.


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Paradoxas Pedras

(Tu és Pedra?)

Bruno de Assis.


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Há gente de todos os tipos. Diferenciam-se em estilos, gêneros e gostos. Seres que buscam sua identidade e humanidade.

E há gente que deixa de ser gente.

Ultimamente, observo esse fenômeno com maior frequência. De gente que deixa de ser gente.

E, numa intensidade bem ínfima, há o avesso desse fato. De gente que se humanizou barbaramente. Humanizou-se em lugares inóspitos, como interno de um presídio.

O falecido Cardeal Francois Van Thuan é um deles. Bispo em uma cidade vietnamita é preso pelo regime comunista. Fica preso durante treze anos, sendo que dos treze, nove é lançado na solitária. Ali, procurava relembrar à memória os pedaços do Evangelho guardados na (in)consciência. Homilias suas eram escritas no verso de um calendário e lidas nas comunidades cristãs ali do Vietnã, como as cartas paulinas. Saindo da prisão, é convocado pelo Papa João Paulo II, Karol Woitjla, a presidir as reflexões para a Cúria Romana pro Jubileu do 2º milênio. Essas reflexões encontram-se no livro "Sementes da Esperança" da Editora Cidade Nova. Humanidade e Divindade que saltam das letras daquele texto.

E ali, encarcerado, o então bispo Van Thuan encarnou os pedaços do Evangelho, quando exilado de sua liberdade. Ele era o pequenino "que estava preso..." e não havia ninguém que poderia visitá-lo. Mesmo assim, inserido naquele ambiente inóspito extraiu dali, humanidade.

Em uma outra perspectiva, há o escritor Luiz Mendes. Preso durante 31 anos e 10 meses por latrocínio, entra semi-analfabeto na prisão e, com a ajuda do amigo Henrique, que conheceu dentro do presídio é apresentado ao mundo das letras. Apaixona-se por elas. Da leitura dos livros e do sofrimentao encarnado, extraiu luz. Hoje escreve. Vive de palestras e dos seus textos produzidos. A literatura foi a ponte do processo de humanização desse escritor, que tem sua forma peculiar de narrar sua vida nos livros "Memórias de um Sobrevivente" e "Às Cegas" pela Cia. das Letras.

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Quando tenho caminhado por aí e - talvez - exercendo a minha liberdade, seja andarilhando, pensando ou observando, há tempos que experimento o inverso. Há um tempinho procuro estar mais recolhido. E assim, quando encontro as pessoas, procuro encontros com maior sentido e significado. Ou, quando sou "encontrado", procuro aguçar o olhar sobre essa ambulante contradição, que compõe o ser humano.

Assim, tenho percebido, que muitos amigos, inimigos, conhecidos e desconhecidos, principalmente em ambientes carregados de um "alto teor institucional", traz em suas palavras, movimentos, pensamentos e nas manifestações cotidianas um processo de petrificação, de endurecimento psíquico e inércia existencial.

Como assim?

Pessoas que durante muito tempo caminharam "servindo" à uma empresa durante anos, ou um preso que esteve encarcerado durante muitos anos, ou trabalhando em um ministério dentro de sua paróquia, comunidade ou "igreja" ou um trauma durante um casamento - seja por conveniência ou até mesmo um laço afetivo que foi perdido - onde, neste último caso, o amor não era nutrido, percebo que muita gente, quando entra num processo de rompimento seja qual a forma de insituição, e mesmo rompendo o vínculo e o pensamento - somado ao corpo, sentimentos, emoções... - continua enraizado na Instituição. E não é pela afetividade construída com as pessoas ou a empatia com o ambiente.

Com o decorrer dos anos ali vividos - seja a empresa, "igreja" ou um "casamento" elas foram se tornando estéreis e deformando o ser naquela "fôrma". Além disso parece que seus pensamentos, emoções e outras dádivas humanas se tornaram petrificadas, frias e mecânicas. As ações não trazem organicidade, não há vida. Parece que as paredes frias do ambiente que viveram durante anos "petrificaram" a pele e a consciência delas.

Parece que a empresa ou a instituição e até o casamento se tornou um Ídolo. E todo Ídolo de Pedra gera seus filhos. Filhos de Pedra.

Tenho visto pessoas assim. Perderam o brilho dos olhos, o sorriso contagiante, a humanidade (des)encarnada no abraço, na troca da hospítalidade pra hostilidade, tomando assim, seres com uma disposiição mental repróvável.

Assim, suas ações emulam sua infelicidade. Não somente a infelicidade, mas divisão. Facção e porfia.

Diabo, vem do grego, "diabolos", que significa "o Divisor". Muitas delas se tornam filhos do Diabo.

Mesmo diante de sua "mordomia", "liberdade", nada, nada dessas dádivas "curam" ou trazem uma ascese à pessoa. Só a pioram. Se tornam consumistas - já que elas se relacionam com coisas e não com seres orgânicos - e assim, procuram "equilibrar" as emoções mal-resolvidas com o consumo desenfreado.

Com esse pensamento e olhar sobre a vida, pessoas petrificadas não conseguem aceitar as múltiplas mudanças que ocorrem na nossa vida cotidiana e quando elas "mudam" na verdade é que elas fogem da "fôrma" que estão psíquicamente inseridas. Somente a medida delas é correta. Somente o seu pensamento petrificado é o mais correto.

E até Deus se torna um ídolo. Um ser frio. Um Nada. Nada relacional. E assim, constroem o deus na mesma fôrma que elas estão inseridas. Se Deus fizer uma supresa pra ela e vir como uma criança remelenta, "meu Deus, é o diabo!", e exorcizam ali o divino. Pessoas assim, encontram o diabo em todos os lugares, já que a mente encontram-se tão familiarizadas com ele.

Mesmo agregados num ambiente "livre" muitos constroem sua prisão. Psíquica. E não precisaram passar anos dentro de um presídio.

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Ainda há chance.

Luiz Mendes e o Cardeal Van Thuan mostram essa luz. Luz que um veio por meio dos livros e por outro da oração e suas reflexões.

Que nosso ser seja mais de barro, mesmo quando nos sujarmos e os outros mostrarem suas peles - de pedra - totalmente lustradas e limpinhas. O barro indica daonde fui feito e assim, confiar no Escultor, n'Aquele que molda, pois é Ele vai assinar a Obra Prima.

Paz & Bem!

B.

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5 Comments:

Blogger patypolo said...

Querido,
O texto é tocante e revelador, ao mesmo tempo. Por que nos mostra o quanto ainda estamos distantes de Deus, aprisionados em modelos sociais os quais nos disseram ser o certo... Obrigada por nos lembrar de que somos barro, pó, nada. E, sem Cristo, nada faz sentido.
beijo grande

4:57 AM  
Blogger Rosana. said...

This comment has been removed by the author.

6:15 AM  
Blogger Rosana. said...

se esse texto lido e entendido me verdade

(...)

6:18 AM  
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